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O luto que interrompe a ampulheta dos ciclos.



O luto é de quem o sente, ele é único, individual e na maior parte das vezes, indescritível as palavras. Luto são as folhas secas da vida cotidiana, um desfolhamento. As folhas secas são as nossas perdas e durante toda nossa existência existem folhas secas.


Cada pessoa vivencia o luto a sua maneira, certo ou errado, não são palavras compatíveis com a descrição das fases desse processo, não tem linearidade ou duração, o sentir do luto é de quem o sente.


Muitas vezes na tentativa de dar algum conforto nesse momento tão avassalador nos precipitamos em querer parar de alguma forma esse sofrimento, porém o luto é um processo da alma que precisa ser vivido e digerido quando e como possível ao longo do tempo e para isso o chorar, o sofrer e o falar fazem parte do processo. Precisamos falar sobre e não ocultar ou minimizar.


Entre os vários lutos de uma vida, existem aqueles que furam com ferocidade a ampulheta do tempo e dos ciclos como a perda perda de um filho.

A perda de um filho é insuportável, indescritível e inominável. Nem mesmo se consegue uma denominação para esses pais. Filhos que perdem pais são órfãos, cônjuges ficam viúvos, mas para a dimensão dessa perda não há nome.

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Pais enlutamos pertencem a descontinuidade mutilante, as projeções frustradas, aos sonhos finitos, pertecem a angústia da perda que se eterniza e se gere na longa marcha dos dias.


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Quando se é permito chorar na sociedade que habitamos?


Vivemos em tempos em que só é permitido mostrar a felicidade, as conquistas e o sorriso em sociedade, o sofrimento e as dores da caminhada da vida são colocadas muitas vezes para de baixo do tapete. As perdas são processos negados em nossa sociedade.

Abordar a morte, especificamente, na questão do luto vivido por mães e pais na perinatalidade - por aborto espontâneo, óbito fetal ou neonatal - se faz importante e necessário já que por muitas vezes esses pais são negligenciados de viver a sua dor e de falar sobre.


A finitude de uma vida e de ciclos nos remete a colocar palavras na angústia que sentimos já que o luto faz uma ruptura do mundo presumido por nós. Numa gestação ou com a chegada de um bebê natimorto essa ruptura fura qualquer ampulheta do ciclo humano e das histórias já introjetadas pelos novos pais.

No luto a perplexidade nos acompanha como uma sombra incômoda a todo momento.


Mas precisamos ressaltar que Luto não é doença e nem um processo de adoecimento daquele que o sente. Assim como nem todo enlutado precisa de auxílio terapêutico para elaboração de tal. Luto não é tão pouco depressão. A depressao é uma otologia dos lutos não resolvidos.

O enlutado fica improdutivo pra o sistema social porque está naquele momento na falta e então sem foco, sem produtividade, sem vontade e como sociedade sabemos lidar melhor quando podemos rotular algo como adoecimentos, a procura de uma cura.


“Quando sou ouvido, torno-me capaz de rever meu mundo é continuar”. Carl Rogers


Caroene Santos Murray

Clinical Psychologist - Child and Adult 🌿

Perinatal and Parental Psychologist 🌿

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