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Projeto Reading Bag _ Brazilian Foundation - "A importancia dos Contos no Desenvolvimento Infantil"



Reading Bag traz uma convidada especial, a Caroene S. Murray, psicóloga clínica que atua em Dublin que compartilha a importância dos contos de fada para o desenvolvimento infantil em um artigo repleto de informações e reflexões importantes.


“Se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim suave e docemente que se despertam consciência”.

(Jean de La Fontaine)


Somos rodeados por contos de fadas desde o período ultra uterino onde nossos pais nos cercam de cantos fabulosos para ninar, histórias para dormir ou um murmúrio fantasioso para relaxar o bebê na barriga. Somos inseridos nesse mundo fantasioso desde nossa concepção. Os pais por muitas vezes quando vão explicar de onde viemos, ou como nascemos, se utilizam das fábulas para dar um toque mágico para a criança.

Os contos de fadas costumam ser nosso primeiro contato com a literatura, e antes mesmo que aprendêssemos a ler, fomos convidados a conhecer o universo lúdico que permeia histórias vindas de outros tempos. Sempre temos um conto de fada na ponta da língua e somos capazes de reproduzi-los sem necessariamente ter um livro em mão, tamanha familiaridade que temos com essas histórias.

Não se pode negar os conflitos que a psique infantil tem que enfrentar. O conto de fadas, assim como a brincadeira, é uma poderosa válvula de escape para que a criança possa enfrentar as dificuldades que ela nem sabe nomear. Através do conto, a criança dá um contorno para o seu conflito, superando-o, e a resolução não se dá pela via racional, pois a criança ainda não está cognitivamente pronta para lidar com esses conflitos como um adulto. Um outro mérito dos contos de fadas é a possibilidade que eles fornecem para os pais interagirem com seus filhos, de um presente, ele pode virar um ritual de boa-noite, ou uma conversa no café da manhã. Os contos de fadas são obras de arte, e como tais, oferecem alternativas para os seres humanos.

Os contos funcionam como espécie de "rito de passagem" antecipado, isto é, não só auxiliam a criança a lidar com o presente, mas ainda a preparam para o que está por vir, a futura separação de seu mundo familiar e a entrada no universo dos adultos. Apesar de a criança viver no mesmo mundo dos adultos, ela o pensa, sente e vê de forma diferente. Para a criança, o mundo, pessoas, coisas, não são reconhecidos como algo fora dela. Reconhecer a exterioridade do mundo, implica para ela, reconhecer os próprios poderes e limites, e é nesse confronto que ela vai se construindo.

Os contos de fadas, levam a criança a descobrir sua identidade e comunicação, e sugerem experiências necessárias para desenvolver ainda mais seu caráter. Eles contam à criança que, apesar dos infortúnios, ela poderá ter uma vida boa; isso se não se intimidar pelas batalhas que irá travar. Estas estórias prometem à criança que, se ela ousar se “engajar” nesta busca atemorizante, os poderes benevolentes virão em sua ajuda, e ela o conseguirá. Elas advertem também que, quem não ousar encontrar sua verdadeira identidade, por receio ou insignificância, terá uma vida monótona, se algo ainda pior não lhes acontecer.


Dando vida às figuras sombrias de nossa imaginação como bicho-papões, bruxas, ogros e gigantes, os contos de fadas podem fazer aflorar o medo, mas no fim sempre proporcionam o prazer de vê-lo vencido. Os contos de fadas, melhor do que qualquer outra história infantil, ensina a criança a lidar com os problemas interiores e achar soluções certas em qualquer sociedade em que se esteja inserida. A criança, como ser participante e atuante da sociedade, aprenderá a enfrentar e aceitar sua condição, desde que seus recursos interiores lhe permitam.

Crianças que flutuam por diversas culturas e línguas também se beneficiam muito dos contos para poder explorar e significar seus medos e ansiedades internas, ‘um conto é um conto e pronto’ não importa em que língua ele é contado. Estórias em geral são pontos de conexões já que partem sempre do mesmo princípio fantasioso de superações e bem-estar. Muitos dos contos foram traduzidos e readaptados a nossa língua Portuguesa e a cultura Brasileira, mas mesmo com pequenas mudanças não perderam sua essência fantasiosa e o poder de magicamente conectar quem o lê em qualquer parte do mundo.

O conto poderá ser usado por pais ou educadores como ponto de associação e conforto para desenvolver e aprimorar uma nova língua ou comportamentos sociais num país que não é o seu de origem, ao falar do lobo mal ou de algum personagem fantástico, cada criança a partir de sua cultura e contexto histórico irá revelar uma percepção e ideia diferente mas o personagem continua sendo bom, mal, amoroso, assustador, etc, não importa a língua falada.

Importante também pontuar e estimular a criança com narrativas, cantigas e contos próprios brasileiros, de nosso folclore ou região, para que com isso a criança além da língua portuguesa, ainda possa se apoderar de uma cultura coletiva rica e cheia de associações com o berço parental ou da própria criança. Como sucede com toda grande arte, o significado mais profundo do conto de fadas será diferente para cada pessoa, e diferente para a mesma pessoa em vários momentos de sua vida. A criança extrairá significados diferentes do mesmo conto de fadas, dependendo de seus interesses e necessidades do momento. Tendo oportunidade, voltará ao mesmo conto quando estiver pronta a ampliar os velhos significados ou substituí-los por novos.

Os contos de fadas são muito valiosos, e porque não dizer ‘mágicos’, ao ponto em que proporcionam a criança uma maneira de escapar da realidade que se dá com o desenvolvimento e crescimento, que por muitas vezes é duro e frustante, e abre a porta da fantasia, do mundo fantástico em que tudo pode, no qual a criança pode sem medo de ser punido, ir com calma, ir elaborando seu próprio caminho. Embora a fantasia seja irreal, os bons sentimentos que ela nos dá sobre nós mesmos e nosso futuro são reais, e estes bons sentimentos reais são o de que necessitamos para sustentar-nos, escaparmos elaborarmos nosso conflito interno enquanto criança em crescimento.


“Afinal, uma vida se faz de histórias – as que vivemos, as que contamos e as que nos contam.”


(Diana and Mario Corso – Fadas no Diva)




Caroene Santos Murray, Psicóloga Clínica, Perinatal e Parental reside e atua em Dublin-Irlanda, onde desenvolve seu trabalho que visa acolher as demandas individuais e coletivas de crianças, adultos, famílias e mulheres no pré, durante e pós maternidade (perinatalidade e puerpério).

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